terça-feira, 26 de setembro de 2017

Ideias obsoletas



Por Cristovam Buarque, senador  e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).



Para continuar sua marcha, o progresso exige aposentar algumas ideias e adotar outras. As notícias dos últimos meses mostram que ainda continua viva a ideia obsoleta de intervenção militar para salvar o Brasil do caos ocasionado por uma ditadura. Eis uma das provas do fracasso das forças progressistas nos últimos anos. Equivocadamente, não enterramos essa ideia suicida nem outras que impendem o avanço do país.
O Brasil ainda acredita que suas florestas e águas são ilimitadas e que, para progredir, é preciso depredar a natureza. É preciso acabar com essa deturpação da realidade e, no lugar, consolidar o propósito de desenvolvimento sustentável: o progresso está em melhorar o bem-estar das pessoas, não necessariamente o consumo de bens materiais. E precisamos aceitar isso. Prevalece ainda o pensamento antigo de que a riqueza se mede pelo número maior de carros e não pela redução de horas perdidas no trânsito.
Da mesma forma, os brasileiros acreditam que o dinheiro do governo é ilimitado e não tem dono, por isso os gastos públicos podem ser desperdiçados. Precisamos entender que, ao gastar bilhões com estádios para a Copa, deixamos de investir em escolas, saneamento e universidades. A mente brasileira não percebe que a inflação é um imposto perverso sobre o povo, especialmente os pobres.
Ainda é permanente a ideia de que o gratuito não é pago, mas o gratuito para alguns é pago por todos. Por isso, é preciso acabar com a falácia de que tudo que é estatal serve ao público. Para ser estatal basta pertencer e ser administrado pelo governo; para ser público é preciso atender com qualidade e eficiência à população de hoje e ao futuro do país.
É preciso entender que a saúde não depende apenas de mais hospitais; ela começa no saneamento, passa por medicina preventiva e por educação para as pessoas cuidarem melhor do corpo e da mente. Apesar de arraigada, é equivocada a ideia de que a violência se combate apenas com mais polícia e mais cadeia. A paz exige uma visão ampla que inclua a busca por assegurar educação de qualidade para todos, quebrar a desigualdade social, retomar a economia.
A evolução social das últimas décadas dividiu os trabalhadores: uma parte com nível de consumo e privilégios equivalentes aos dos capitalistas ricos; outra parte, desempregada ou recebendo baixos salários. Ao mesmo tempo, milhões de pequenos empresários têm renda inferior à de assalariados. Apesar disso, muitos estão convictos sobre a existência de um proletariado que representaria o conjunto dos trabalhadores, todos explorados pelos capitalistas.
No debate sobre a Abolição, alguns acreditavam que os escravos não seriam capazes de sobreviver em liberdade. Felizmente, essa ideia foi enterrada. Agora é preciso superar o pensamento arrogante de que os trabalhadores não são capazes de escolher e financiar livremente seus sindicatos e definir a melhor maneira de defender seus interesses. Os direitos dos trabalhadores decorrem mais da educação que eles receberam na infância e juventude do que de leis que não resistirão ao avanço técnico em marcha no mundo.
O eleitorado acredita ainda que basta o voto a cada quatro anos para considerar o Brasil um país democrático. A democracia exige fiscalização, cobrança e educação. Pela Lei da Ficha Limpa, a cobrança de propina na construção de um estádio faraônico é motivo para barrar a candidatura de um governador na eleição seguinte. Mas seria preciso exigir a lei do curriculum limpo, que o punisse por gastar quase R$ 2 bilhões em um elefante branco, quando, ao redor do prédio, há milhares de pessoas sem saneamento, saúde e boas escolas.
Para quem acredita que o aumento de salários e bolsas é capaz de erradicar a pobreza, a realidade mostra que aos mais desfavorecidos falta de acesso aos bens e serviços essenciais. A emancipação não vem da renda, mas da educação. O Brasil precisa abandonar a velha crença de que os filhos dos pobres sempre estudarão em escolas sem a mesma qualidade das que os filhos dos ricos estudam. Se o Brasil quer progredir, deverá enterrar esse antigo preconceito e adotar a ideia, seguida em muitos países, de que é preciso e possível montar um sistema educacional com qualidade e igual para todos em todo o país. Estamos amarrados a conceitos superados, mas muitos brasileiros ainda se agarram a eles como zumbis que se negam a ser enterrados. E resistem a novas ideias, necessárias para os novos tempos.


Artigo publicado pelo Jornal Correio Braziliense 


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