quarta-feira, 14 de julho de 2010

A SAGA DOS WAIMIRI-ATROARI

Há algum tempo vem circulando na internet um email em nome de Mara Silvia Alexandre Costa supostamente do Depto de Biologia Cel. Mol. Bioag.Patog. FMRP – USP, que também vem assinado por Celso Luiz Borges de Oliveira, supostamente, Doutorando em Água e Solo FEAGRI/UNICAMP,ambos fazem, sem provas, referências absurdas sobre a Reserva Indígena Waimiri-Atroari até mesmo afirmam que existem bandeiras americanas e inglesas hasteadas no local. Que estrangeiros mandam no pedaço e autorizam ou não a passagem das pessoas no trecho da BR 174 na altura da Reserva.

Só que essa brincadeira passou dos limites, pedem,com ar de terrorismo, para que os destinatários repassem o email de modo a formarem uma rede.

Você que conhece a Reserva e sabe que tudo isso não passa de uma grande mentira peço ajuda na divulgação desse post. Mas se você nunca passou por lá e é um dos que recebeu esse email por favor leia com atenção a verdade sobre a história das aldeias e da construção da BR-174

No mais, podem deixar que tomaremos as providências judiciais cabíveis.
Maria Rachel Coelho
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A SAGA DOS WAIMIRI-ATROARI
*Por João Américo Peret



Em 1967, o Cel. Mauro Carijó, Diretor do Der-Am,veio ao Rio de Janeiro “pedir” governo militar ao Dr. Gama Malcher, diretor do SPI/FUNAI que retirasse 11 aldeias de índios selvagens que flecharam seu avião. O caso aconteceu quando fazia vôos de reconhecimento para a construção da BR-174 Manaus-Roraima. Alegou que era questão de “segurança nacional” e que os índios não podiam atravancar o progresso e interesses do Brasil.

A conversa se tornou calorosa, porque Dr. Malcher, profissional de carreira em via de aposentadoria, era um ferrenho defensor dos direitos indígenas. E não tinha “medo de caretas”.

Nas fotografias aéreas apresentadas pelo Cel. Carijó, as choças “cogumelos gigantescos”,com mais de 80m de diâmetro, abrigava a população inteira. As roças eram abundantes,a região era de natureza bruta intocada com rios de águas negras,corredeiras e cachoeiras,como veias da floresta bem copada. Calculamos no total uns 6.500 índios povoando a região. Pela localização seriam os antigos Jauapery (Waimiri-Atroari).

Eram tempos de mudanças e transformações,o SPI virava FUNAI. Sem verba e com poucos sertanistas: irmãos Villas Bôas, Francisco Meireles, Cícero Cavalcante, Peret (autor) e João de Carvalho. Ocupados em trabalho de campo. Sugeri o colega Gilberto Pinto (ajudante de sertanista) para ser promovido e tratar do caso. E sugeri ao Cel. Carijó que fizesse o apoio logístico com helicóptero para acelerar os primeiros contatos,depois o Gilberto prosseguiria no sistema tradicional,mais lento e eficaz.

Em julho de 1968,o sertanista Gilberto conseguiu o primeiro contato amistoso com os ditos “selvagens”. O sr. José Queiroz Campos, jornalista assumiu a presidência da FUNAI (não entendia lhufas de índios). Mas fazia parte das “forças ocultas: políticos, latifundiários, empresários, missões religiosas”. Retiraram o sertanista Gilberto Pinto (FUNAI), e colocaram no seu lugar,o padre Giovanne Calleri, italiano, sem nenhuma experiência com índios (Missões Consolata(RR).

No final de 1968,a expedição Calleri desapareceu na floresta... O PARA-SAR (Grupamento de Busca e Salvamento –FAB) ficou 20 dias procurando e dizendo coisas... O sertanista Gilberto Pinto (retirado do serviço), recusava-se a ajudá-los nas buscas (e com muita razão). O Ministério do Interior e de Relações Exteriores, pressionaram a FUNAI para ajudar nas buscas. O Dr. Malcher, consultado sugeriu meu nome. Fui. Por razões óbvias o Cap. Lessa, comandante do grupamento não ficou feliz com minha presença. Provei minha experiência e desinteresse na mídia e assim fui incorporado.

Resolvemos o caso:os índios cortaram uns cipós; segui este sinal,sozinho,sob protesto do Major Lessa. Encontrei os restos mortais de uma mulher. Gritei chamando o PARA-SAR. Enquanto examinavam o achado, segui outra pista e encontrei os restos do Padre Calleri atrelado ao de outro homem. O PARA-SAR completou as buscas e o translado para Manaus.

Meses depois o sertanista Gilberto Pinto reassumiu a pacificação dos Waimiri-Atroari. Em 1972 consolidou os contatos e instalou Postos de Assistência. Levou os caciques e familiares para conhecerem Manaus. Era amado pelos índios que o chamavam de “Pai Gilberto”. Mas o sertanista da velha guarda,incorruptível,era contrário que a BR-174,passasse dentro das aldeias. Estranhamente Gilberto Pinto foi morto no Natal de 1974. Consta que “forças ocultas” (seriam compostas por políticos,latifundiários, empresários,missões religiosas). O sertanista Porfírio de Carvalho denunciou pessoas envolvidas no crime.consta até que nos ferimentos à bala, colocaram flechas dos índios para incriminá-los. O certo é que a família do Gilberto não pode ver o corpo.

O sertanista Porfírio de Carvalho substituiu o Gilberto e novamente pacificou os Waimiri-Atroari. Mas ferrenho defensor dos índios, protestava contra a BR-174 e as “forças ocultas”. Por isso foi enxotado da FUNAI... Desgostoso, foi morar em Brasília,fez faculdade e ficou por lá.

A BR-174 atropelou as Aldeias dos Waimiri-Atroari. E os índios que em 1967 seriam mais de 6.000 (seis mil),nos últimos anos estavam reduzidos a uns 380 (trezentos e oitenta). Suas terras passaram às mãos das ditas “forças ocultas”. Construíram a cidade de Presidente Figueiredo, a maravilhosa Cachoeira Maruaga (do cacique Atroari) virou atração turística. Construída a Hidrelétrica de Balbina que afogou o meio ambiente,e transformou a região num pântano fétido.; a Eletronorte explora energia elétrica e minério; o governo distribuiu as terras dos índios como devolutas. As índias foram prostituídas e a miséria se abateu sobre esse povo ao longo da BR-174.

Os índios ficaram numa Reserva Indígena diminuta. Mas são bravos! Não desistem nunca! E recuperaram a dignidade com a força interior!

Um jovem Waimiri foi enviado a procurar o “Pai Carvalho”, pegou carona num caminhão, em Manaus virou “menino de rua” perambulou indagando pelo “Papai Carvalho”.Alguém o achou parecido com índio e o levou para FUNAI.Na FUNAI ninguém sabia do paradeiro do “Pai Carvalho”.Colocaram-no num avião para Brasília. Lá virou “menino de rua”, até que identificado como índio foi levado para FUNAI. Com dificuldade foi descobrir o ex-sertanista Porfírio de Carvalho na secretaria do deputado Mario Juruna. Abraçaram-se e choraram de emoção.

O menino explicou no idioma:

- Papai Porfírio,você tem que voltar comigo para a Aldeia.Nosso povo ta acabando!

O ex-sertanista abandonou o emprego e voltou a Reserva Indígena que havia criado para os Waimiri-Atroari. A Aldeia só tinha jovens,os mais velhos haviam sido dizimados por doenças, promiscuidade, e a ferroe fogo, bala.

Porfírio reorganizou os índios dentro da tradição cultural indígena. Entrou na justiça e foi conseguindo indenizações pelos prejuízos que o governo e as “forças ocultas” deram a esses índios.
Contratou professores e técnicos de várias áreas para ensiná-los a ler e escrever em português, tecnologia para desenvolver projetos ecológicos e a região foi transformada em berçário da fauna, recuperação da flora, piscicultura,tartarugas etc.A região é Reserva Biológica. Por fim começou a comprar as terras indígenas que lhes foram tomadas. Amparados legalmente conseguiram autorização para construir guaritas e cobrar pedágio,nas suas terras invadidas pela BR-174. A noite eles barram a passagem de veículos e pessoas estranhas para não perturbarem a vida na Reserva Biológica e a eles, filhos da natureza.

Em 2006 os Waimiri-Atroari me convidaram para festejar o nascimento da milésima criança Waimiri-Atroari.

Mas as “forças ocultas” não lhes dão guarida. Na Reserva Indígena só entram pessoas de reconhecida idoneidade moral e de real comprometimento com a causa indígena.

São fantásticos esses índios Waimiri-Atroari. Em poucos anos tornaram-se competentes para gerir os próprios destinos. E o amigo mais amado – PAPAI CARVALHO.


*Peret, Ex-sertanista do SPI/FUNAI,58 anos ao lado dos índios

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Comunidade Waimiri Atroari comemora o milésimo nascimento :

Os índios Waimiri Atroari, habitantes da Terra Indígena homônima, situada ao norte do Amazonas e sul de Roraima atingiram a população de mil pessoas com o nascimento de um menino, filho do casal Anapidene e de Ketamy, no último dia 26 de setembro, na aldeia Yawara. A chegada do milésimo kinja, auto-denominação dos Waimiri Atroari, representa a recuperação desse povo, que esteve próximo à extinção na década de 70, com o avanço da construção da estrada que liga Manaus (AM) à Boa Vista (RR) e da atividade mineradora na região. A recuperação dos Waimiri Atroari foi possível, graças ao Programa Waimiri Atroari.

O indigenista Porfírio Carvalho, servidor aposentado da Funai, é o coordenador do Programa Waimiri Atroari, criado em 1987 para recuperar o processo de repopulação e provável extinção desse povo. Segundo Profírio, o Programa foi elaborado em conjunto com os indígenas, com a participação de profissionais e técnicos especializados em diversas áreas. O objetivo inicial foi recuperar as terras e proporcionar sustentabilidade, com qualidade de vida para esses indígenas, ameaçados com o avanço desenvolvimentista da década de 60/70. Hoje, o programa emprega mais de 80 técnicos, cuida da saúde, educação, cultura e sustentabilidade econômica desse povo e tem o site http://www.waimiriatroari.org.br/.

Em 1969, quando Carvalho conheceu os Waimiri Atroari, eles eram altivos e guerreiros. Ao reencontrá-los em 1986, "estavam doentes, tristes, perambulando pela BR 174 (Manaus-AM a Boa Vista-RR), esmolando carona e comida dos caminhoneiros. Morriam, em média, 20% ao ano e caminhavam para a extinção", relata o indigenista, que sempre se dedicou à questão indígena, e hoje trabalha especialmente, junto aos Waimiri Atroari e aos Parakanã, no Pará, e ainda colabora com os Guajajara, do Maranhão. Carvalho não esconde sua comoção, quase paterna: "Saí contando para todos: nasceu o milésimo Waimiri Atroari!... Parece que os vejo todos, todos os mil na minha frente... Eu estou feliz. E grato a todos que me ajudaram a realizar este sonho", concluiu o indigenista vitorioso.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ministério Público entra com ação contra ex-reitores da UnB

Ministério Público entra com ação contra ex-reitores da UnB



O Ministério Público Federal no Distrito Federal (MPF/DF) entrou com ação de improbidade administrativa contra os ex-reitores da Universidade de Brasília (UnB) Lauro Morhy e Timothy Mulholand e o ex-presidente da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) Valdi Bezerra, no dia 1° de julho. Segundo a denúncia, a assinatura irregular de convênios para promoção da saúde indígena nas comunidades Xavante, em Mato Grosso do Sul, e Yanomami, em Roraima, permitiu o desvio de mais de R$ 8,8 milhões em uma única fase dos projetos.Também vão responder ao processo Alexandre Lima, Elenilde Duarte e Cláudio Machado, ex-contratados da Editora UnB. A medida faz parte da primeira etapa do trabalho de investigação do MPF, iniciado em 2008, a partir do escândalo envolvendo a reforma do apartamento do ex-reitor Timothy. Já foram propostas duas ações de improbidade e cinco denúncias criminais, que aguardam julgamento pela Justiça Federal.De acordo com o processo, as irregularidades começaram com a contratação da Fundação Universidade de Brasília (FUB) pela Funasa, sob o fundamento de se tratar de instituição de pesquisa, ensino e desenvolvimento institucional. Segundo o Ministério, sem qualificação técnica e estrutura operacional para realizar atividades de assistência à saúde em comunidades localizadas a milhares de quilômetros de distância, a FUB subcontratou, sem licitação, duas fundações de apoio: a Fubra, de 2004 a 2006, e a Funsaúde, de 2006 a 2007.Para o Ministério Público, a captação desse tipo de parceria pela FUB e as subcontratações sucessivas eram, na verdade, um artifício para facilitar o desvio de recursos da esfera pública para a privada. Uma vez repassado às fundações de apoio, o dinheiro inicialmente pago pela Funasa à Universidade era gerido por uma estrutura administrativa paralela, coordenada por Alexandre Lima, ex-diretor da Editora UnB.Um dos mecanismos utilizados para maquiar os desfalques era o recolhimento de uma suposta taxa administrativa pelas fundações de apoio, correspondente a 7,5% do total recebido pela FUB da Funasa. Além disso, a investigação apontou irregularidades como simulação de licitações; contratação de empresas de fachada; consultorias fantasmas; pagamentos em duplicidade; contratação de parentes e amigos dos acusados e gastos sem comprovação.De acordo com as apurações, o dinheiro desviado foi utilizado para custear gastos de interesse pessoal dos envolvidos, especialmente a promoção política do ex-reitor Timothy. Foram contabilizadas como despesas dos convênios, por exemplo, pagamento de festas, viagens internacionais, jantares, móveis e eletroeletrônicos para uso particular, aquisição de canetas de marca, entre outros gastos sem qualquer relação com ações de apoio à saúde indígena.O MPF cobra o ressarcimento do dinheiro desviado e a condenação da FUB a elaborar projeto de assistência à saúde indígena para as comunidades atingidas pelas ilegalidades. Os envolvidos também podem sofrer sanções como suspensão dos direitos políticos, perda do cargo, proibição de contratar com o Poder Público e pagamento de multa.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Peret e D.Marly: 52 anos de casamento!

..."Eu namorei a Marly Neves aos bocadinhos, entre minhas idas e vindas das aldeias para a cidade. Eu queria uma companheira para não me envolver com as belas índias, pois a ética proibia os funcionários de casar com as índias. A Marly era adulta e a família não fazia objeção ao namoro. Ficamos noivos, formei um grupo de amigos para conhecer o rio Araguaia e os índios Karajá. Na volta, entreguei meus documentos para a Marly marcar o casamento e me avisar a data três meses antes, para que eu pudesse chegar a tempo. Isso aconteceu em 1958. A lua-de-mel aconteceu nas praias a céu aberto, com o sol, a lua e as estrelas"...

depoimento retirado da entrevista concedida à Marília Jaccoud - Gente em Foco - para ver toda a entrevista clique em:

http://www.velhosamigos.com.br/Foco/peret.html

Essa linda história de amor fez hoje 52 anos!
Parabéns aos eternos namorados!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

INAMPI: O CABOCLO QUE AMOU UMA BÔTA

INAMPI: O CABOCLO QUE AMOU UMA BÔTA


Inampi:

O caboclo que amou uma bôta


* Por João Américo Peret

Essa história com sabor de lenda amazônica nos foi narrada por Inampi,um caboclo Mura que vive nas barrancas do rio Urubu, município de Itacoatiara, Amazonas.

Inampi não tem “idade” porque não sabe quando nasceu. Ele como a maioria dos caboclos amazônicos, é de “pouca fala”, porque o seu linguajar é mais interior; ele é introspectivo e sua mente está impregnada de fantasias do sobrenatural,provocadas pela fantástica e misteriosa natureza.

Inampi acredita que viveu a estória que raramente conta a alguém, com receio de não ser levado a sério.Nós a conseguimos com muito custo e vamos reportá-la com o máximo de detalhes que ele nos deu :

-Eu estava esquentando o sol (tomando banho de sol) para criar coragem de mergulhar no lago . Este só não estava totalmente espelhado porque uns botos brincavam soprando para o ar e “banzeirando” às águas.

Criei coragem e mergulhei com os olhos abertos, vendo os fachos de sol varando as águas transparentes até o fundo do lago. Quando eu estava lá embaixo, surgiu, também mergulhando,uma cabocla totalmente nua. Ela aproximou-se de mansinho e segurou em meus braços suavemente e juntou seu corpo moreno ao meu. Ficamos assim por um instante. Mas este pareceu longo. Quando comecei a subir para respirar, ela soltou-me e sumiu como uma bolha de ar, ploft...

Cheguei à superfície e fiquei boiando, e esperando que ela também subisse. Ela não apareceu, apenas os botos continuavam a brincar. Desconfiado, nadei para a beira e fiquei na praia com uma esperançazinha de que ela chegasse. Ela não apareceu...

Fiquei desconfiado e pensando nas estórias que contavam de que boto virava gente e encantava pessoas. Voltei para casa meio cismado e não contei nada a ninguém,com medo de que não me acreditassem.

À noite sentei-me na rede e fiquei pensando, pensando no caso... Depois, quando o sono queria me pegar, escutei uns assobios lá fora.

Fuiiu, fuiiu...

Curioso, abri a janela para espiar... lá fora, no meio do terreiro, estava “Ela” e acenou-me chamando.

Um pensamento atravessou minha cabeça: “Ela é tucuxi”, uma bota, não pode ser outra pessoa... Quando cheguei, “Ela” me sorriu,deu a mão e caminhamos juntos até a praia.

A princípio, fiquei assustado. Mas depois comecei a corresponder aos seus carinhos e esqueci a estória de encantamento, “boto vira gente”... pra me entregar ao amor.

Depois de algum tempo “Ela” me perguntou:- “Você quer conhecer minha gente?...”

Confesso que senti um sobressalto. Mas “Ela” conteve meu receio, acariciando-me e falando meigamente: “Não tenha medo, eu garanto que nada de mau acontecerá...” – Sendo assim,concordei.

“Ela” falou: - “Acompanhe-me e feche os olhos por um instante”. Fechei, e então senti como se um cortinado estivesse sendo colocado sobre minha cabeça enquanto caminhávamos em direção ao lago. Mas, a água não me molhava. “Ela” falou: “Pode abrir os olhos”.

Quando abri os olhos fiquei espantado e surpreso; já havíamos atravessado as águas sem nos molhar e a superfície do lago estava por cima de nós, como se fora de plástico transparente, deixando ver as estrelas e a lua. Chegando ao fundo do vale submerso, encontramos uma verdadeira cidade,como as nossas: cheia de ruas e casas,as pessoas e os animais também eram iguaizinhos como aqui. Chegamos a sua casa e “Ela” me apresentou a duas irmãs e à mãe.Todos agiam com muita naturalidade. E isso era incrível para qualquer um... Depois fomos para um jardim e ficamos namorando. Haviam outros casais.

Diante da visão do mundo exterior da superfície que também podíamos contemplar lá de baixo, quase me esqueci que estávamos sob as águas. Quanto tempo passamos assim eu não sei. Depois eu pedi que “Ela” me levasse de volta a superfície. “Ela” fez um muxoxo de quem não queria voltar logo e sussurrou-me: - “Fica mais um pouquinho. Será que você não está gostando de mim?...”

Argumentei que estava precisando descansar e que outro dia voltaria se “Ela” fosse à superfície me buscar. “Ela” concordou e voltamos subindo as encostas do barranco, e quando já estávamos próximos a superfície do lago “Ela” me mandou fechar os olhos. Finalmente chegamos a praia.

Ficamos juntos ainda um pouquinho e “Ela” me levou até próximo a minha casa, esperou que eu entrasse e saiu cantarolando uma canção em direção à praia. Depois escutei um baque de alguém se atirando no lago e novamente o barulho dos botos arfando e batendo n’água.

Deite-me e fiquei “cismando” muito tempo antes de dormir. No dia seguinte não tive coragem de contar o fato a ninguém,porque não iriam-me acreditar...

A estória se repetiu durante várias noites e eu já estava conhecendo muita gente de lá de baixo, da “cidade submersa”. Então,”Ela” me fez essa pergunta.

- você quer morar comigo aqui em nosso mundo?..
- Ainda não estou certo, gosto muito de viver lá fora na superfície com minha gente...respondi

Aquele foi o momento da decisão, porque a mãe dela escutou nossa conversa e interrompeu: - acho melhor você deixar esse namorado de lado,ele não gosta de você!”

Depois que “Ela” me trouxe de volta nunca mais veio me procurar.
E foi uma pena, porque se “Ela” voltar a me procurar eu irei definitivamente para a “cidade submersa” no fundo desse lago do rio Urubu.

Assim, Inampi revelou seu segredo, que embora soe como lenda, ele afirma: - “Pode acreditar tintim por tintim nessa estória, porque é a mais pura verdade: Eu amei uma bota!”...



* João Américo Peret, um dos maiores indigenistas do país trabalhou na equipe de sertanistas do SPI/Funai (1950-1970), conviveu com o Marechal Rondon e foi discípulo de Malcher, Heloisa Torres e Eduardo Galvão. Colaborador de vários antropólogos em pesquisa nas aldeias indígenas, o carioca João Américo Peret foi colega e conviveu com os sertanistas irmãos Villas Boas, Francisco Meirelles e Gilberto Pinto. Realizou contatos com índios isolados e teve ativa participação na vida de milhares de índios brasileiros, ao criar postos de assistência e indicar áreas que deveriam ser convertidas em Reservas Indígenas. Em 1968 encontrou a “Expedição Calleri”, então desaparecida no Amazonas. Realizou inquéritos, sindicâncias e pesquisas nas aldeias visando melhorar a administração e assistência aos índios. Esteve no Monte Roraima e nas malocas de Raposa e Serra do Sol em Roraima. Após deixar a Funai continuou auxiliando os índios com projetos voltados às suas aldeias. É arqueólogo, escritor, jornalista, acadêmico, roteirista cinematográfico, fotógrafo. Participou da exposição “500 anos de Brasil” no exterior e criou uma ilustração para a moeda de prata comemorativa de cinco reais e para a cédula de dez reais de plástico, cuja imagem traz ilustração de um índio. Ao lado do também legendário Darcy Ribeiro, participou da criação do Museu do índio e da criação da “Comissão Pró-índio, no Rio de Janeiro, onde reside. Atualmente, João Américo Peret participa do Movimento em Defesa da Economia Nacional (MODECON); Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos (CEBRES), organização voltada às questões indígenas e problemas de fronteiras.

terça-feira, 8 de junho de 2010

TV Globo mostra em reportagem da edição de hoje do Bom Dia Brasil,como monstros estão matando os Botos Amazônicos

Um crime hediondo vem sendo cometido contra os botos amazônicos. Segundo reportagem de hoje do Bom Dia Brasil, os Botos tem sido alvo de matadores de aluguel na Amazônia. A carne do animal, que faz parte do folclore da região, serve de isca para a pesca da Piracatinga, muito apreciada na Colômbia e nos Estados Unidos.

“Matamos cerca de 100 ou 200 botos por mês. A matança é muita. Puxamos o animal para dentro da canoa e matamos com facão, cassetete, essas coisas”, diz ele.

Segundo o matador, quem contrata o serviço, busca o comércio de órgãos do animal, como olhos e partes reprodutivas.

A carne do animal também serve de isca para a pesca da Piracatinga.

O peixe, também chamado de urubu d’água por se alimentar da carne de animais mortos, é pouco conhecido na culinária brasileira, mas muito apreciado na Colômbia.

A preocupação com os botos da Amazônia levou o pesquisador português do Programa Botos no Pará, Antônio Migueis, a investigar o comércio do urubu d’água.

“O peixe vai para a Colômbia e para os Estados Unidos onde é usado como aperitivo em restaurantes”, explica Antônio.

A pesquisa do Intituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Vera da Silva, é especialista em botos. Há 17 anos, ela e sua equipe estudam e contam os animais da região de Mamirauá, na Amazônia.

“Temos percebido que cada vez mais há uma diminuição do número de botos na área. A causa é a captura direta, que é o maior perigo que a espécie enfrenta”, afirma a pesquisadora.

Até agora se acreditava que os matadores de boto agiam mais na região oeste do Amazonas, perto do maior mercado consumidor de Piracatinga: a Colômbia. Lá, fica Mamirauá, onde a diminuição do numero de botos já foi confirmada.

Mas denúncias do pesquisador português Antônio Migueis mostram que os matadores chegaram a oeste do Pará, na região de Santarém.

Vejam a reportagem completa com vídeo no link: http://bit.ly/bI0kww






Inteligentes e dóceis, os Botos são usados até mesmo para brincar com crianças com leucemia.
Vejam, a respeito,esse vídeo:

quinta-feira, 27 de maio de 2010

João Américo Peret participa de Moção contra Hidrelétrica de Belo Monte na Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Manifestação de João Américo Peret acerca da Moção contra Barragem de Belo Monte/Xingu/Pará realizada na Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Foto: Silvia Nobre Wajãpi, Maria Rachel Coelho e João Américo Peret em evento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde demonstraram decepção e preocupação com a construção de Belo Monte.


Querida Eliane Potiguara,
Seu desempenho no evento apresentado na Câmara Municipal, sob os auspícios do vereador Leonel Brizola Neto, foi excepcional, tratando de temas polêmicos como a construção da hidrelétrica “Bel-Monte” (antiga hidrelétrica Karahô Kayapó), lembrando a heroína TUIRA KAYAPÓ que num gesto simples, encostou um facão (como cetro) na cabeça do exaltado diretor da Eletronorte e disse: - "Estou benzendo você com “meu cetro”: Sua mente para você entender que mais vale a vida do que uma luz elétrica, nós temos o sol; Nos ouvidos para você escutar a voz da razão; Na boca para você não ordenar o afogamento, a morte da Mãe Terra, dos seres vegetais, animais e minerais, enfim, da natureza... Para iluminar a noite temos o brilho das estrelas, da Lua..."
Observação: A índia Tuira Kayapó me contou sua atitude, foi ao perceber que índios e brancos iam entrar em guerra... “Eu tinha que chamar aquele homem tresloucado, à razão; Falei pra a alma dele olhando nos seus olhos. Foi só isso; Ele entendeu que tinha que parar com a discussão.” Os jornais abriram manchete dizendo que foi cena de selvageria, canibalismo... Mas deu certo; baixou sobre a turba um silêncio sepulcral e todos encontraram o caminho de volta às suas casas. A natureza agradeceu. Mas, agora vemos que o grupo que projetou a hidrelétrica, urdia nas sombras uma artimanha para voltar com maior força impondo sua vontade maligna. Passado 35 anos, “rasparam” o nome “Hidrelétrica Karahô” (dos valentes guerreiros Kayapó). E, ardilosamente deram nova roupagem ao projeto, e o nome para: “Hidrelétrica Bel-Monte”. Nota-se que os atores não indígenas de todo mundo que estiveram em Altamira, não perceberam a trapaça...
Vamos ver repetido o que acontece nas construções de hidrelétricas; Milhares de quilômetros quadrados transformados num deserto, que vira lamaçal putrefato, expelindo gás metano, que polui o ar sem controle, asfixia a vida dos seres da natureza e dos seres humanos. E destrói a vida no Planeta. E pasmem, essa destruição tem o apoio incondicional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como afirma o Cacique Megaron Txukarramãe Kayapó em sua carta denúncia ou Abaixo-Assinado.
Você minha querida amiga Eliane Potiguara, leu a carta do Cacique Megaron Txukarramãe, sobrinho e porta-voz do Cacique Raoni Txukarramãe, redigida especialmente para este Evento político-social, sob os auspícios do Vereador Leonel Brizola Neto, na Câmara Municipal do RJ.
Seu objetivo é transformar a Carta em Abaixo-Assinado (e assinamos), denunciando a construção da hidrelétrica com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Megaron conclama os parentes, os ecologistas, os aliados dos povos indígenas a resistirem como guerreiros. E se não bastarem os argumentos, se deixarem imolar (afogar na Usina de “Bel-Monte”). Aliás, quero lembrar a vocês que a palavra “Megaron”, nome do cacique Txukarramãe significa “Espírito”. E eu quero assistir as “Olimpíadas de 2016” com vida. - rsrsss.
Como indigenista fiz um comentário sobre a cultura dos povos indígenas, os embates com as populações envolventes, e as mazelas administrativas com a inversão dos valores ético-sociais que assola o país, principalmente o governo. É conveniente lembrar que no jogo de interesses e ilícitos, os jornais publicaram que presidentes da FUNAI, largaram a função para criarem ONGs para se dedicarem a administrar povos indígenas cujas reservas estão localizadas sobre minas de ouro, diamantes, etc. Ou seja, onde existem garimpos.
Por fim, tivemos a Dra. Sílvia Nobre Waiampí, declamando seu poema épico “Essa Terra não é Tua” - e fez o público ficar emocionado, e ela própria declamando em lágrimas.
Para mim, esse poema épico sobre a “invasão européia” nas terras dos Brasilíndios, nos leva a meditar se o nosso planeta é realmente o “Paraíso - Terras Sem Males”, onde os povos indígenas são os Guardiões. Os lamentos dos povos indígenas couberam inteirinhos no poema épico da Dra. Sílvia Nobre Waiampí, que não deixou por menos; Saiu das aldeias Waiampí, no Estado do Amapá, cursou três Faculdades, bacharelou-se. E de quebra cursou a ADESG (equivale a Escola Superior de Guerra), uma instituição que seleciona muito bem seus convidados.

Um abraço terno de jibóia amiga,
João Américo Peret,
indigenista da velha guarda (SPI).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Rede Grumin de Mulheres Indígenas convida para o Evento: "CONSTRUINDO NOVOS HORIZONTES"


A REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS


CONVIDAMOS AO EVENTO: "CONSTRUINDO NOVOS HORIZONTES"

http://blog.elianepotiguara.org.br/2010/05/18/evento-do-grumin-construindo-novos-horizontes/



DIA 27/05/2010
HORA: DE 11 ÀS 13 HS / QUINTA-FEIRA
LOCAL: AUDITÓRIO DA CÂMARA MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO
CINELÂNDIA - RIO DE JANEIRO - BRASIL
*Homenagem póstuma a: Dona Quitéria Pankakaru e Mário Juruna
*Fortalecendo a Rede Mulheres Indígenas pela PAZ
*Moção contra Barragem de Belo Monte/Xingu/Pará

ELIANE POTIGUARA
Fellow da Ashoka
Observatório da Mulher Indígena
INBRAPI/Inst.Indíg.Bras.Propriedade Intelectual
Membro Fundadora del Enlace Continental de Mujeres Indígenas
Associação Mulheres pela PazComitê Intertribal

www.grumin.org.br (institucional)
http://www.elianepotiguara.org.br (site oficial da escritora)http://groups.yahoo.com/group/literaturaindigena