domingo, 9 de agosto de 2009

HOMENAGEM AO MEU PAI



Pai
Estou fazendo um DVD
Tentando perenizá-lo
No vídeo guardá-lo
Suas formas, seu jeito
De falar e de andar
Seu sorriso,seu carinho
Tento agarrar

É possível guardar até sua voz
Algumas de suas histórias
Mas não é possível guardar quase nada

Como guardar um abraço?
Um beijo?
Uma brincadeira no sofá?
Como abraçar uma fita?

Temia tanto sua falta
A falta de sua voz, do abraço, do seu jeito
E aconteceu
Te vi morto, frio, em silêncio
Nem mais um abraço
Nem mais uma pergunta
A audiência da vida acabou,
Só me restou assinar a ata
Nem deu tempo para um aparte
Nem pra consignar nada
E eu perdi você
A morte não negocia
Não me permitiu um atraso
Não me deu mais um dia
E nem dá pra recorrer

Fiquei só
Do único homem que amei
Nem deu tempo pra dizer adeus
Morte desgraçada
Que não agenda nada
Não adia, não avisa
Leva sempre a pessoa errada
E não adianta tentar guardar
Um pouco de você
No bolso,
No armário
Na urna,
Na foto,
No vídeo
Ou em DVD
Não se consegue guardar nada
Não dá pra guardar um abraço
Um sorriso, uma opinião
Sobre um fato novo da vida

Pai
Não dá pra guardar fotos
As coisas fogem das mãos
O tempo escorre
Tudo passa, tudo envelhece
E eu me iludo
Que você se pereniza em mim
No que me ensinou
Nos momentos que vivemos
Na minha própria carne
Nas doenças herdadas
Na forma do corpo
Nos vícios recebidos no convívio
Nos valores, nas idéias...
Tudo isso guardo de você em meu peito
Mas não tem jeito
O meu pai
Que é um pouco de mim
Envelheceu e passou...

Como isso dói
Fiquei só, de você
E o que guardo é tão pouco,
Míseras migalhas
Quase nada
Porque tudo isso é nada
Fitas de vídeo, fotos, cartas
Nada substitui o prazer
Do teu olhar, teu suspiro
Tua voz amiga
Tua vida, tua existência
Tua presença ao meu lado
Pai
Nada substitui você!

sábado, 1 de agosto de 2009

Cid Gomes é que é inconstitucional!

E os professores do Ceará pagam a conta

*Por Maria Rachel Coelho

A imprensa nacional divulgou a semana inteira matérias mostrando que a mulher do governador do Ceará,Cid Gomes, Maria Célia Ferreira Gomes, mesmo não ocupando cargo no governo, viajou ao exterior duas vezes nos últimos oito meses com passagens aéreas de primeira classe, diárias e ajuda de custo pagas pelos cofres do estado.

Maria Célia foi ao Cairo, Egito, entre 28 de novembro e 5 de dezembro de 2008, atendendo a um convite da primeira-dama do Egito, Suzanne Moubarak, para participar da Cúpula Mundial da Família + 4. Em Portugal, entre 12 e 19 de abril deste ano, ela foi divulgar o artesanato cearense, a convite do complexo turístico Orixás, na cidade de Sintra.

Maria Célia e sua mãe, Pauline Carol Moura, já estiveram no centro de um escândalo em 2008 por terem viajado num jato fretado pelo governo do Ceará por R$ 338.5 mil. Na ocasião, ela percorreu cinco países em dez dias. Para justificar a presença da sogra, Cid Gomes disse à época que atendeu a pedido da mulher.

Cid Gomes é um dos 5 litisconsortes na ADI 4167, que tenta a declaração de inconstitucionalidade, pelo STF, da Lei do Piso dos Professores. Os autores argumentam que da forma como está na lei, o valor do piso é o salário base, os professores iniciantes ainda podem ganhar gratificações além desse valor. A ação pede que os R$ 950 já incluam eventuais acréscimos. Segundo eles a lei "impôs aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios regras desproporcionais, por implicarem despesas exageradas e sem amparo orçamentário".O grupo de governadores calculou ainda que haveria mais gastos com a Lei para suprir a ausência destes profissionais das salas de aula, e concomitantemente para cumprir o calendário escolar, far-se-ia necessária a imediata contratação de novos servidores, que a lei trata dos contratos do estado com os professores e manda que 33% da carga horário dos professores seja extra aula. Dizem eles que não podem realizar concursos, contratar de 15% a 20% a mais de professores para cumprir a Lei.

Enquanto Maria Célia viaja às custas do erário, os professores da rede pública de ensino do Ceará sofrem.

Estavam em greve, e voltam obrigados por uma decisão judicial. A greve reivindicou a progressão horizontal e a realização imediata de um concurso público, já que há 10.046 temporários no Ceará e o Estado só abriu quatro mil vagas. Além do reajuste salarial de 19,2%, a reformulação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) também pedem a implantação do piso salarial.

No Ceará, 606 mil crianças e adolescentes de três a 17 anos estão fora da escola, segundo o relatório “Situação da Infância e da Adolescência Brasileira 2009”, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com base nos dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2007).
Analisando os resultados, o oficial de Educação do Unicef, Rui Aguiar, diz que o contigente de crianças e jovens excluídos da escola no Ceará é maior do que a população de muitos países,como por exemplo, Beirute, Capital do Líbano, com 600 mil habitantes, ou ainda a cidade de Veneza, com 543.189 habitantes.
Apesar desses indicadores negativos, o governador diz que R$ 950,00 para um professor é uma despesa exagerada e sem amparo orçamentário, já os quase R$ 22.000 das passagens e das diárias de sua mulher não. Tem que ser muito cara de pau!

A Constituição Federal estabelece no artigo 37 que a administração pública deve obedecer ao princípio da moralidade que envolve a análise da ação administrativa, pertinente ao seu interesse público.

A sociedade tem que se unir em busca de soluções e não esperar que esses políticos deixem de pensar em seus interesses e campanhas para pensar na educação das crianças.


...” Lugar de criança é na escola”...
Leonel Brizola


* Professora Universitária e Diretora Presidente do MEB – Movimento Educacionista do Brasil.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

ESCOLAS "SEM DESCULPAS" PROJETO-MEB NA RÁDIO CBN

Modelo de 'escola sem desculpas' mostra que é possível recuperar crianças de baixo nível socioeconômico.
ESCUTE A ENTREVISTA COM MARIA RACHEL COELHO, PRESIDENTE DO MEB - MOVIMENTO EDUCACIONISTA DO BRASIL, À RÁDIO CBN.



http://cbn.globoradio.globo.com/programas/revista-cbn/2009/07/26/MODELO-DE-ESCOLA-SEM-DESCULPAS-MOSTRA-QUE-E-POSSIVEL-RECUPERAR-CRIANCAS-DE-BAIXO-NIV.htm

sábado, 25 de julho de 2009

O QUE É O EDUCACIONISMO-MEBIANO

O QUE É O EDUCACIONISMO-MEBIANO

Por Maria Rachel Coelho

Foto: Senador Cristovam Buarque aderindo ao Movimento Educacionista do Brasil - MEB - como membro fundador.


Acabei de chegar de Brasília e resolvi escrever este artigo para esclarecer alguns mal-entendidos. As pessoas estão confusas e não estão entendendo qual a proposta do MEB.
Inicialmente, cabe ressaltar que o termo "educacionismo" é um termo cunhado ainda no século XIX, para designar os adeptos da "transformação social" através da "educação", que substituiria a ação política. É uma das características do anarco-comunismo de Piotr Kropotkin (1842-1921).

No Brasil, o primeiro a falar de Educacionismo foi o professor Sílvio Gallo, em O Paradigma Anarquista em Educação e também em Educação Libertária. Gallo é filósofo e professor da UNICAMP.

O termo Educacionismo também está relacionado ao escritor e político mexicano Justo Sierra (1848-1912), cujas idéias e iniciativas na vida educacional do seu país foram marcantes para a época. Fiel aos ideais liberais e positivistas, lutou por uma educação primária de caráter nacional, laica e gratuita; preocupou-se com a formação e valorização dos docentes; foi um dos principais criadores da Universidade Nacional Mexicana. Acreditava na educação como fator de crescimento econômico e de aperfeiçoamento da vida social.

Como todos podem ver, o termo tem a sua história.

Provavelmente, Cristovam Buarque, leitor voraz, já os conhecia, e procurou recuperar, recontextualizar (repolitizar) a palavra. Logo após sua campanha presidencial em 2006 encontrou um grupo que inicialmente começou com Ney Bravo, de São Paulo, e o Luis Afonso, do Rio Grande do Sul, que começaram a trabalhar por esse ideal.

Eu cheguei logo depois, e trouxe comigo o Professor Tomaz, da Paraíba; o Ricardo Menezes, do Mato Grosso do Sul; o Professor Belém do Amazonas; o Junior de São Paulo; o Professor Francisco de Pernambuco e inúmeros educacionistas que acreditaram nessa causa. Mas tínhamos um grande problema pela frente: como nos organizarmos para realizarmos esse sonho, já que para nós, hoje, educacionistas-mebianos, a causa educacionista consiste também em tomar as medidas necessárias para que todas as crianças iniciem cedo sua caminhada escolar (a partir dos quatro anos de idade), aprendam limites, valores e que as recompensas venham não pelo caminho fácil, do “jeitinho” que compra atalhos, mas pelo mérito; que encontrem salas de aulas disponíveis e com pleno potencial de aproveitamento de recursos pedagógicos e tecnológicos; que os professores se preparem bem, sejam bem remunerados, vocacionados e consequentemente não se ressintam em ser cobrados após serem valorizados; que possam contar com diretores de escola disponíveis, entusiastas e agregadores de parcerias pelo bem da escola; e que possam contar com gestores públicos que pensem em políticas públicas que envolvam as famílias no processo educativo, assim como acontece em países como a Inglaterra.

Os desafios são muitos. O maior como sempre é colocar nossa criatividade à prova para obter recursos para nossa empreitada de forma ética e transparente.

No “Movimento Educacionista – dos assessores de Cristovam” não se sabe para onde e tampouco em que é aplicado? Quando nos reunimos com o próprio Senador e propusemos institucionalizar o Movimento, tivemos uma forte resistência de alguns assessores de Cristovam, que se achavam donos do Movimento. Com muita facilidade, pois com o poder nas mãos, boicotavam nossas notícias, monopolizavam nosso jornal e blogs e lamentavelmente até baniram alguns de nossos coordenadores de uma Rede que foi construída com o trabalho de todos.

Coincidência ou não, depois que Cristovam desistiu de sua candidatura a Presidência em 2010, e não teve como levar adiante a candidatura à Unesco, embora tenha adorado a idéia e aderido ao MEB, perdeu o interesse em nos acompanhar. Foi, então, que o grupo decepcionado, magoado e se sentindo usado teve mais entusiasmo ainda.

Ele reafirma que continua com a gente. Ainda esta semana se mostrou feliz de termos organizado o MEB e de não pararmos de crescer. Segundo ele: ...”só assim o Movimento sobreviverá, quando eu morrer”...
E nós não paramos. Não somos movidos a cargos mas sim por uma imensa paixão. Estamos enlouquecidos com tantas adesões e envio de projetos de educacionistas-mebianos de todo o país. Porque aí está a grande diferença.

O projeto dos assessores do senador – Movimento Educacionista-Senado- visa apenas a reeleição de Cristovam para o senado e assim seus cargos por mais 8 anos.
Contudo, nosso propósito é maior, não se restringe a isso. Embora o custo seja bem elevado para o povo, vale a pena ter Cristovam no Senado, diria até que é necessário. Suas palavras ditas em plenários vazios, ou para construir imagem, não importa, são orgulho para todos nós. Mas queremos mudar a realidade, somos Mebianos porque queremos trabalhar essa causa. Somos Mebianos porque acreditamos em todos esses discursos, mas pensamos que até mesmo para continuar a divulgá-los temos que mostrar que isso é possível. E o Educacionismo é possível. Disso, nós não temos a menor dúvida.

* Professora Universitária e Diretora-Presidenta do Movimento Educacionista do Brasil - MEB

Nosso site entra no ar dia 12 de agosto

http://www.educacionismomebiano.blogspot.com/

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Quem foi Piotr Kropotkin, “pai do Educacionismo”

Quem foi Piotr Kropotkin, “pai do Educacionismo”

* Por Maria Rachel Coelho

O geógrafo, anarquista, e criador do educacionismo Piotr Kropotkin viveu de 1842 a 1921. Piotr é referência obrigatória no movimento anarquista internacional, não só por ter lançado em suas obras os fundamentos básicos de grande parte do ideário que iria nortear a história do anarquismo em seus desenvolvimentos subseqüentes, mas também pela dedicação integral de sua vida à causa da Revolução Social As idéias de Kropotkin têm como núcleo que somente educando-se intelectual e moralmente o povo este emanciparia-se, e evoluiria-se para o comunismo.

O anarquismo é – em termos gerais – uma doutrina de crítica da sociedade capitalista, visando sempre sua transformação e buscando a liberdade individual sem desprezar o social. A etimologia da palavra Anarquismo vem do grego “anarchos” que quer dizer “sem governo”, ou seja, uma ideologia que tem como pressuposto a idéia de inexistência de
qualquer tipo de governo ou poder. Para os anarquistas as instituições governamentais são intrinsecamente injustas e autoritárias o que as tornam prejudiciais à sociedade. Portanto, os anarquistas crêem que o Estado é desnecessário, existindo outras formas alternativas e viáveis para a organização da sociedade.

Em termos históricos “Anarquia” e “Anarquista” aparecerem de forma mais presente durante a Revolução Francesa, no entanto com um sentido de crítica negativa e até de
insulto, onde elementos de vários partidos usavam estes termos para difamar seus oponentes, geralmente pessoas de esquerda (WOODCOCK, 2002). Esta conotação
negativa da palavra prevalece até hoje na linguagem popular. Contra esta deturpação do anarquismo que aconteceu durante a Revolução Francesa temos os ensinamentos de Kropotkin que diz que o anarquismo tem suas raízes na Idade da Pedra quando o homem começou a viver em sociedade, pois para ele o instinto de justiça, de cooperação e de liberdade é um instinto natural do ser humano. O autor na verdade, procurou as raízes do anarquismo não nos filósofos, mas na massa anônima do povo.

É fundamental entender também que dentro da doutrina Anarquista existem muitas variantes, as principais são: o anarquismo individualista; o anarquismo mutualista; o anarquismo coletivista; O anarquismo comunista ou revisionismo educacionista: Aqui está o núcleo central de todos os problemas, desvios e deformações que a idéia do comunismo traz ao revisionismo-educacionista. No comunismo não há regulação social da economia, o indivíduo é o soberano absoluto na produção e na distribuição dos bens materiais, tudo girando em torno de sua necessidade. É importante ficar claro que a “necessidade” é algo absolutamente subjetivo e arbitrário, ou seja, enquanto um homem pode ter a “necessidade” de viver e consumir com simplicidade um outro pode ter a “necessidade” de ter tudo a toda hora e, de acordo com o comunismo, nada pode se interpor a esta “necessidade” individual já que ela é o centro em torno do qual gira a própria sociedade. Tamanho absurdo encontra uma solução autoritária e mecanicista na teoria marxista: a ditadura do Estado Popular se encarrega de condicionar moralmente as massas e de desenvolver ao infinito as forças produtivas com vistas a atingir uma abundância permanente. Já com Kropotkin e seus seguidores se vai cair no educacionismo, no evolucionismo cientificista e no flerte com o liberalismo. Kropotkin entende que o comunismo exige um adequada preparação moral das massas para que as “necessidades” de uns não se oponham às “necessidades” dos outros e façam ruir esta verdadeira “cidadela de anjos”. Assim sendo, de maneira extremamente coerente, Kropotkin assume uma linha política condizente com o evolucionismo biológico que já vinha sistematizando como núcleo de sua elaboração intelectual relativa à história das sociedades humanas. Para Kropotkin, a humanidade evoluía inexoravelmente rumo a formas elevas de apoio mútuo e neste processo evolutivo (que guardaria semelhanças com aquele de animais sociais como as formigas e as abelhas) tendia a romper com as estruturas sociais opressivas tais como a dominação burguesa. Desta maneira caberia aos “anarquistas-educacionistas kropotkinianos” agir de maneira a esclarecer e a educar intelectual e moralmente as massas no sentido de avançar o processo evolutivo que levaria à consolidação do comunismo. Assim e naturalmente Kropotkin e seus seguidores tenderam a se afastar do movimento operário e se aproximar da intelectualidade burguesa no sentido de convencê-la a trabalhar no sentido de educar moralmente as “massas ignorantes” de proletários, como afirma Kropotkin neste trecho:

“não tardei em reconhecer que não se produziria nenhuma revolução, pacífica ou violenta, enquanto as novas idéias e o novo ideal não tivessem penetrado profundamente na própria classe cujos privilégios econômicos e políticos estavam ameaçados”.

Eis aqui claramente o nível de profundidade da revisão liderada por Kropotkin com relação aos pressupostos desenvolvidos por Bakunin. Ao invés do anti-cientificismo de Bakunin, eis o evolucionismo biológico enquanto matriz teórica. Ao invés do método analítico e político materialista tal como formulado por Bakunin, eis o idealismo analítico e o educacionismo enquanto prática. Ao invés do classismo intransigente e revolucionário de Bakunin, eis a burguesia assumindo o papel de conduzir o proletariado a sua elevação moral. Estas deformações vão conduzir a outras no plano prático. A idéia de organização vai ser violentamente atacada pelos kropotknianos em perfeita concordância com seus pressupostos teóricos. Se a sociedade comunista é aquela em que o indivíduo e suas “necessidades” sujeitam o conjunto da sociedade, porque então o indivíduo que se educa hoje moralmente para este futuro deveria “castrar-se” frente as necessidades organizativas coletivas que diferem das suas individuais. É desta maneira que vai ganhar fôlego um agressivo individualismo anti-organizativo entre os kropotkinianos, e é deste meio que vai sair o resgate do liberal Max Stirner que até então era um absoluto desconhecido autor do passado.

O revisionismo educacionista ou anarco comunismo tem princípios muito próximos do anarquismo coletivista de Bakunin, diferenciando-se no modo de distribuição das riquezas produzidas, logo que sua máxima é: “de cada um de acordo com suas possibilidades e a cada um de acordo com as suas necessidades”. Piotr seu idealizador, entendia que era necessário, como alicerce desta proposta, a total expropriação dos bens da humanidade, já que compreendia ser impossível medir a contribuição de cada um no processo histórico da humanidade, censurava também qualquer tipo de governo ou representatividade.
Kropotkin era russo de família rica. Na sua biografia destaca-se o fato de que na Internacional ficou ao lado dos que apoiavam a facção de Bakunin (apesar das diferenças teóricas.
É importante perceber que no interior das formulações de Bakunin são centrais as idéias do 1) Anti-cientificismo (defesa da ciência mas recusa de seu papel dirigente na sociedade);
2) materialismo enquanto método analítico e político (uma recusa profunda de todo “educacionismo”): “Eu gosto muito desses socialistas burgueses que nos gritam sempre: ‘ Instruamos primeiro o povo e depois o emancipemos’. Pelo contrário nós dizemos: Ele que se emancipe primeiro e se instruirá ele próprio” ) portanto contra as idéias de Marx, oficializando assim as diferenças em relação ao pensamento deste intelectual. Como todo filósofo com idéias distintas em relação aos demais de sua época não teve o devido reconhecimento, ficando à margem do pensamento hegemônico (de esquerda) da época, principalmente o geográfico. Portanto, resgatar as obras de Kropotkin se faz muito importante pelo conteúdo de crítica radical que contém e também por acreditarmos que muitos de seus ideais continuam necessários e vivos na atualidade.

Acredita-se que a originalidade do pensamento de Kropotkin o tornou o principal responsável pela mudança da teoria anarquista, depois dele o anarquismo se tornou uma “teoria séria e idealista de transformação social, e não mais uma doutrina de violência de classes e de destruição indiscriminada".

A base de construção de sua teoria vem de sua experiência no governo dos Czares, experiência que nele despertou o horror pelo governo autocrático e a decepção com a indiferença e a corrupção daqueles que representavam o Estado. Por outro lado, mostrou-se impressionado com o sucesso de colonização em bases cooperativas de exilados na Sibéria. “Comecei a apreciar a diferença que existe entre a ação baseada no princípio do comando e da disciplina e na ação baseada no princípio do entendimento mútuo” .
Sua contribuição como geógrafo baseia-se principalmente nas 50 mil milhas que viajou pelo Oriente elaborando teorias sobre a estrutura das cadeias de montanhas e platôs da Ásia Oriental, articulando estes conhecimentos com a discussão sobre a grande seca que levou povos da Ásia Oriental a migrarem para o ocidente provocando invasões bárbaras na Europa e no Oriente. Foi também um dos colaboradores da Enciclopédia Britânica. Como fruto destas expedições recebeu convite para assumir a Sociedade Geográfica Russa, mas recusou o convite por pensar que havia coisas mais importantes a se fazer naquele momento como, por exemplo, “lutar por uma sociedade mais justa”. Em 1878 funda o Jornal Le Révolté que se tornaria o mais influente dos jornais anarquistas.
Dentre as suas principais obras destacam-se: “Palavras de um Revoltado”, publicado com a ajuda de Elisée Reclus (que também era geógrafo e anarquista), em 1885. O livro trata da incapacidade dos governos revolucionários, para ele: “Nada se faz de bom e durável senão pela iniciativa do povo, e todo poder tende a matá-la” (KROPOTKIN, 2005, p.10). Faz critica contumaz aos socialistas dizendo que estes estão mais preocupados com a burocracia, enquanto os anarquistas estão mais preocupados com a prática da igualdade. Diz ainda que atos de protestos e revoltas fazem mais propagandas do que milhares de brochuras: “Basta de leis, basta de juizes! A liberdade, a igualdade e a prática da solidariedade são o único dique eficaz que podemos opor aos instintos anti-sociais de alguns de nós” (KROPOTKIN, 2005, p. 11).
No Livro “A conquista do Pão”, publicado em Paris no ano de 1892, é onde Kropotkin desenvolve mais explicitamente a teoria do anarquismo comunista. Nele reúne artigos escritos nos últimos dez anos, onde aborda vários temas da vida cotidiana e problemas sociais que sofria o povo naquele momento - e alguns até hoje – propondo soluções pensadas para um mundo onde a produção seria para o consumo e não para o lucro. Ele acreditava não se tratar de uma visão de sociedade utópica, mas sim uma discussão presente das razões científicas e históricas dos problemas que afligem a humanidade e da sua superação. Acreditava fundamentalmente que é necessário criar comunas (unidades mais próximas ao povo para suas preocupações imediatas), sendo que estas comunas não seriam impostas por um governo e sim fruto de uma união voluntária: “pela união das outras comunas produzem uma rede de cooperação que substitui o Estado”.
Certamente seu Livro “A ajuda mútua”, publicado em 1902, é o mais conhecido e surge como resposta aos neo-darwinistas que transportaram para o campo social as idéias naturalistas da obra de Darwin como forma de legitimar o imperialismo de países europeus. Na época. Kropotkin refuta as idéias dos neo-darwinistas defendendo que a ajuda mútua é mais importante para evolução das espécies, pois ela é instintiva e esta presente em todos os seres vivos, sendo ela a responsável pela sobrevivência e proteção dos mais fracos. E que embora força, rapidez, astúcia, cores e peles – mencionadas por Darwin como qualidades que tornam os indivíduos mais aptos – sejam importantes, a sociabilidade é a maior vantagem na luta pela vida. É o que podemos ver inclusive na vida humana ainda que no capitalismo, pois se não fosse a sociabilidade humana (mesmo que seja alienada) nós não teríamos o conhecimento, as tecnologias e os benefícios historicamente produzidos pelo homem. Kropotkin escreve que a solidariedade é uma qualidade inerente ao ser humano, e que nem as instituições coercivas como o Estado conseguiram acabar com a cooperação voluntária.

Os últimos dias de sua vida foram dedicados a divulgação de seus ideais, morre em 8 de Fevereiro de 1921 pregando que sua maior contribuição foi dar abordagem científica aos ideais anarquistas. Na visão de Woodcock (2002), sua maior contribuição foi promover a humanização do anarquismo e estabelecer uma relação entre teoria e a prática.


Acreditamos que para haver uma verdadeira mudança na sociedade atual o caminho a se seguir é o da crítica radical, é por meio dela que podemos desmistificar e quebrar princípios arraigados na nossa sociedade como, por exemplo, o de se confiar na representatividade política, delegando o poder a outros.
Como ensina Kropotkin, isto acaba com o espírito de ajuda mútua entre os homens, que já não se vêem como participantes e atuantes na sociedade, deixando sempre para que outros façam a melhoria e o desenvolvimento da sociedade. É preciso pensar que por meio de relações mais simétricas podemos construir um desenvolvimento mais humanitário, logo menos material.

Entendemos que os ideais de Kropotkin têm eco entre nós. Neste sentido, é interessante lembrar que ele pregava o ideal de expropriação dos bens da humanidade, onde tudo é de todos, da não-propriedade privada, onde as terras são cultivadas em comum, o princípio da não-autoridade, ou seja, da liberdade e autonomia como princípio, do desenvolvimento livre da ciência e das artes para todos, da produção conforme a possibilidade de cada um e o consumo conforme a necessidade. Por outro lado, acreditamos ser possível encontrar práticas na atualidade que se aproximam destes ideais como as vivenciadas pelas comunidades indígenas.


Existe até mesmo comprovação da existência de outras comunidades no Brasil como pode-se verificar pela pesquisa realizada por Eduardo Roberto Mendes e Rosemeire Aparecida de Almeida junto aos Yubas ( Comunidade Rural Yuba em Mirandópolis – São Paulo) – Revista NERA – ANO 10,N. 11 – JULHO/DEZEMBRO de 2007.

Por sua vez, a continuação e/ou aperfeiçoamento destas comunidades rumo a uma maior igualdade, portanto a superação dos “privilégios” de alguns de seus membros, depende de tempo para que os exemplos dos voluntários convençam pelo apelo moral os mais reticentes (como pensava Kropotkin), entendemos que é preciso também maior diálogo principalmente a respeito deste assunto que nos pareceu ser tratado como “tabu”. Pois, a continuidade das desigualdades pode agravar-se e, com isso, a vida comunitária, em cooperação mútua, dará lugar ao individualismo.
Atualmente vivemos num sistema que venera o individualismo em meio a graves problemas sociais e ambientais, neste cenário as obras de Kropotkin tornam-se atuais, pois elas falam de uma nova sociedade e já podemos vê-la em prática entre os Yubas. Isso contribui para pensarmos e lutarmos por estes ideais comunitários em que o individualismo, o consumo de futilidades, a super produção e o trabalho abstrato não tenham o foco central, mas, sim, o trabalho prazeroso, a arte e o consumo conforme as necessidades individuais de cada um, tendo como base a educação e a ajuda mútua.

*Professora Universitária e Diretora Presidenta do Movimento Educacionista do Brasil -MEB

EDUCAÇÃO SEM DESCULPAS

EDUCAÇÃO SEM DESCULPAS




Por Rachel Coelho



Ao longo da última década, em Nova Iorque, dezenas de escolas charter, escolas independentes que atuam com o apoio público e recebem fundo de iniciativa privada tem produzido grandes resultados com base num novo método: o "No excuses Schools", as "Escolas Sem Desculpas".
As escolas Harlem Children's Zone são um projeto notável, considerado recentemente pelo New York Times , "uma das mais ambiciosas experiências sociais do nosso tempo." Sendo uma das maiores realizações na área educacional dos últimos tempos, os grupos Harlem Children’s Zone estão provando que é possível recuperar crianças de baixo nível socioeconômico, crianças negras e aquelas para as quais o inglês é a segunda língua.
Os resultados também mostram um modelo emergente para estudantes de baixa renda. A teoria básica é que as crianças de classe média entram na adolescência com determinados modelos de trabalho em suas cabeças: o que eu posso alcançar, a forma de controlar impulsos; como trabalhar duro. Muitas das crianças mais pobres, com desestruturação familiar não têm interiorizado esses modelos.
A criança dentro do programa é trabalhada como um todo (seu ambiente familiar, aspectos sociais) e não somente com disciplinas curriculares. Um dos princípios trabalhados é que tanto a família quanto a comunidade se engajem no projeto. Pode haver até mesmo um incentivo econômico para que os pais participem do programa, mas mesmo na ausência desses fatores há todo um trabalho psicológico onde valores de classe média são incutidos nos alunos para que eles tenham aspirações na vida. Além de estímulos a auto estima, aprendem bons comportamentos sociais: como se comportar em público, como apertar uma mão etc.
A idéia é de Geoffrey Canadá, que afirma que as escolas, hoje, tem que ser redesenhadas para o sucesso . O programa abrange 100 blocos e atende 10.000 crianças em torno do Harlem. É um exemplo de como a inovação permitida em escolas charter, livre do jugo das tradicionais escolas públicas, pode ser um catalisador para a inovação e realização.
Nesse modelo de sucesso, o ano escolar também é mais longo. Segundo Canadá, algumas Harlem Children's Zone escolas estão abertas das 8h45 às 5h45, 11 meses por ano, porque é isso que é necessário para buscar esses estudantes. A avaliação de todos os passos é feita todos os dias pra ver o que está dando certo. Os resultados saem bem rápido para não deixar o aluno perder o passo, afinal ele tem que recuperar ainda no mesmo ano letivo. Os que estão com desempenho ruim passam 50 por cento mais tempo na escola. Já os que estão bem, ficam por mais 2 horas além do horário tradicional. Também são cobrados dedicação e esforço dos professores que são trocados quando após constantes avaliações, houver baixo desempenho dos alunos.
Alguns especialistas em educação argumentam que a escola sozinha não pode produzir grandes alterações. Os problemas estão na sociedade, e você tem de trabalhar em questões mais amplas como as desigualdades econômicas. Reformadores, por outro lado, afirmaram que a escola com base em abordagens pode produzir grandes resultados: crianças americanas de origem africana com médias iguais a crianças de classe média branca.
Canadá, que também é presidente e diretor executivo do Harlem Children’ s Zone, explicou na reportagem do New York Times que "se você intervém precocemente, a educação começa antes do nascimento, tendo os pais como parceiros e depois sendo academicamente rigoroso, você pode corrigir o problema. Se você começa mais tarde, no ensino médio, ainda é possível mas é muito, muito mais difícil. É como um paciente que está meio morto e tenta-se salvá-lo”. Canadá também defende que para eliminar o fosso social, o investimento nas crianças pobres deve ser maior, a nível comunitário e de longo prazo. Canadá estimou que a sua empresa investe uma média de 5.000 dólares por criança acima do que já é gasto em escolas públicas e programas para famílias pobres do bloco 100-seção do Harlem.
Na mesma matéria, Canadá disse que conheceu vários presidentes, governadores e secretários da educação e eles perguntaram para ele qual era a a solução? E ele respondia: "Eu sou completamente responsável por essas escolas e por alcançar essas crianças. Alguém tem que ser responsável”.
Quando Canadá começou o projeto Harlem Children's Zone, disse a seus financiadores que, se ele não mostrasse uma reviravolta completa na péssima performance do Harlem no prazo de cinco anos, que deveriam demiti-lo. Ao explicar isto para seus professores disse, "Sim, mas eu sou o último a ir embora." Ele incutiu um sentimento de responsabilidade em todo o seu pessoal.
"É um trabalho árduo, mas infinitamente factível", explica Canadá. Apesar dos resultados, faltam professores. Ninguém quer trabalhar nessas escolas. Eles até concordam em pagar um salário melhor mas vinculado ao desempenho, por isso são avaliados constantemente.
Essa é uma apaixonante experiência para copiarmos sem "nenhuma desculpa, no que for preciso". Um novo modelo de escola concebido para um tempo diferente. Com um senso de responsabilidade social e uma vontade acadêmica. É só realizar, sem desculpas.

Rachel Coelho é professora universitária e Diretora Presidente do Movimento Educacionista do Brasil- MEB


terça-feira, 21 de julho de 2009

TERMINA O 51o CONUNE

Terminou neste domingo, 19, o maior evento de estudantes do Brasil, o 51° Congresso da União Nacional dos Estudantes,que reuniu cerca de 10 mil universitários em Brasília.
O MEB – Movimento Educacionista do Brasil, que agora conta com um Núcleo no Distrito Federal e Entorno, sob a coordenação de Rafael Seabra, e com o apoio da Juventude Socialista do PDT, aproveitou o Congresso para divulgar e esclarecer as diferenças entre Educacionismo-Mebiano e Educacionismo-Senado.
Com debates profundos sobre os excluídos, um novo marco regulatório do petróleo, soberania nacional etc o maior celeiro de militantes e lideranças de correntes de pensamento do Brasil se despediram satisfeitos com uma juventude que não está inerte.

Domingo, também foi eleita a nova diretoria da União Nacional dos Estudantes (UNE) para o biênio 2009-2011. A eleição foi no Ginásio Nilson Nelson.
O novo presidente da entidade é o paulista Augusto Chagas, de 27 anos, estudante do primeiro período do curso de Sistemas de Informação da Universidade de São Paulo (USP). Como ocorreu nos últimos anos, a chapa vencedora é ligada ao PCdoB.
Oito chapas disputaram a eleição. A aliança que elegeu Chagas, contou com o suporte da União da Juventude Socialista (UJS, braço estudantil do PCdoB), do PSB, da JS, Juventude Socialista do PDT, PMDB e do Partido Pátria Livre (PPL, antigo MR-8). O PT, no entanto, entrou rachado na discussão em quatro movimentos: Mudança, Reconquistar a UNE, Quizomba e CNB. Apenas uma parcela dos seus membros apoiou Chagas.
Chagas prometeu aumentar a presença da entidade em questões nacionais, e pela mobilização em torno da aprovação, no Congresso, do projeto de reforma universitária apresentado em maio ao Parlamento. O texto prevê a implementação de um auxílio estudantil de cerca de três quintos do salário mínimo vigente para todos os estudantes carentes, de universidades públicas e privadas.
Outra batalha para Augusto Chagas é o benefício da meia entrada que segundo ele foi desvirtuado. Segundo Chagas, esse benefício, originalmente destinado aos estudantes, desvirtuou-se. Ele também é contrário à proposta do meio artístico de estabelecer cotas para a meia-entrada.
-Tivemos um retrocesso grande nos últimos anos e temos de restringir esse benefício apenas aos estudantes, disse Chagas.