sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Brasil é vice-campeão do mundo em educação profissional





Fotos: José Paulo Lacerda

*Por Maria Rachel Coelho Pereira

Realizada a cada dois anos, a WorldSkills é a maior competição de educação profissional do mundo. Os melhores alunos de mais de 60 países das Américas, Europa, Ásia, África e Pacífico Sul disputam medalhas em modalidades que correspondem às profissões técnicas da indústria e do setor de serviços. Eles precisam demonstrar habilidades individuais e coletivas para responder aos desafios de suas ocupações dentro de padrões internacionais de qualidade.

A competição reúne jovens qualificados de todo o mundo, selecionados em olimpíadas de educação profissional de seus países, realizadas em etapas regionais e nacionais.

Este ano, a WorldSkills 2017 teve mais de 100.000 visitantes dos Emirados Árabes Unidos e de todo o mundo, 1.300 jovens qualificados de 68 países e regiões membros em 52 ocupações do setor industrial e de serviços. A competição aconteceu esta semana em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.


A cerimônia de abertura contou com mais de 10 mil pessoas presentes no estádio Yas Du Arena, torcendo por seus, suas jovens  e por aqueles que competiram durante o WorldSkills Abu Dhabi 2016, que foi realizada sob o patrocínio de Mohamed Bin Zayed Al Nahyan, Príncipe Herdeiro de Abu Dhabi e Vice-Supremo Comandante das Forças Armadas dos Emirados Árabes.


A noite de abertura começou com o hino nacional dos Emirados Árabes, antes de um discurso memorável de Mubarak Saeed Al Shamsi, diretor-geral do Centro Abu Dhabi de Educação e Treinamento Técnico e Profissional (ACTVET), que destacou que a Capital dos Emirados Árabes Unidos se orgulhava de ter recebido os 100 mil visitantes para o evento de uma semana, acrescentando que Abu Dhabi é o coração da hospitalidade do Oriente Médio.

Apesar da China ter liderado a mesa de medalhas com 15 medalhas de ouro, 7 de prata e 8 bronzes; a Coréia,  em segundo lugar em pontos de medalha com 8 ouro, 8 prata e 8 bronzes e a  Suíça em terceiro, ganhando 11 de ouro, 6 de prata e 3 de bronze, o Brasil se manteve na elite da educação profissional do mundo. Com um total de 34.901 pontos, ficou em 2º lugar geral na maior competição de profissões técnicas do mundo. Os russos ficaram em primeiro, com 35.461 pontos.

A delegação brasileira foi composta por 56 competidores, 51 alunos e ex-alunos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e 5 do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), que competiram em 50 ocupações. É bom lembrar que na última edição da WorldSkills, em 2015, o Brasil ficou em primeiro lugar. 

Em agosto de 2015, a cidade de São Paulo sediou a 43ª WorldSkills, realizada no Anhembi Parque. A delegação brasileira, formada por 56 competidores, foi a grande campeã da edição, conquistando 27 medalhas. Foram 11 de ouro, 10 de prata e 6 de bronze, além de 18 certificados de excelência. No ranking de pontos totais, o time brasileiro ficou no lugar mais alto do pódio. Esse foi o melhor desempenho do Brasil desde que começou a participar da competição, em 1983. A delegação competiu com 59 países, representados por 1.190 competidores, um número recorde na história do evento


Em Abu Dhabi o Brasil demonstrou seu padrão de excelência em educação profissional. Estamos entre os melhores países do mundo (China, Coreia do Sul, Suíça e Rússia) e isso é importante para criar oportunidades para os jovens e competitividade para a as empresas. Estamos orgulhosos com o resultado alcançado pelo jovens do SENAI e do Senac que, com muita fibra e talento, representaram o Brasil”, destacou o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade.

Para o diretor-geral do SENAI, Rafael Lucchesi, o resultado demonstra o alto nível do Brasil no conjunto das profissões. "É o nível de excelência que o Brasil tem e que dificilmente nós conseguimos reproduzir em outros rankings, seja de desempenho econômico, de competitividade, inovação ou de educação regular.  Em educação profissional, o Brasil tem excelência, que é uma porta para a juventude brasileira", disse.

Embora o país tenha ficado em segundo no ranking de pontos, no quadro geral de medalhas os brasileiros ficaram em 4º lugar. Foram 15 medalhas em Abu Dhabi, sendo 7 de ouro, 5 de prata e 3 de bronze, além de 26 certificados de excelência. Considerando apenas as medalhas, a primeira posição ficou a China, Coreia do Sul e Suíça, mas o Brasil se manteve à frente de países com bastante tradição na disputa, como França, Japão, Áustria e Alemanha. 

Se em outros rankings mundiais de educação o Brasil não consegue melhorar sua posição, em educação profissional o caminho é inverso. Na última edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), o país registrou  queda de pontuação nas três áreas avaliadas: Ciências, Leitura e Matemática. Com isso, o Brasil ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática. A prova foi aplicada em 70 países.

Os vencedores chamados no palco orgulhosamente levantaram a bandeira do Brasil, alguns emocionados derramaram lágrimas.


Verdadeiros heróis. Campeões! Com medalhas ou não, orgulho de todos nós brasileiros. Melhores do Mundo! 

* Professora, Educadora e indigenista

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cristovam Buarque faz homenagem aos Professores em Sessão Solene no Senado

Cristovam Buarque faz homenagem aos Professores em Sessão Solene no Senado

*Por Maria Rachel Coelho Pereira


Hoje, em uma Sessão Solene no Senado Federal, iniciativa do Senador Cristovam Buarque,  de todos que se pronunciaram, a unanimidade foi a violência.

Muito natural, durante toda semana discutiu-se o cenário atual da educação brasileira à luz de agressões e mortes.

Com uma rápida pesquisa na web, apontando as principais dificuldades no ensino e nas instituições públicas e privadas do país, também constatamos isso. Quais são os maiores problemas da educação, na opinião dos brasileiros? "A gente vem aqui para estudar, quando chega não tem aula", diz uma menina do Rio de Janeiro, comunidade da Rocinha. "Salários baixos. Os professores ficam desmotivados", afirmam alunos e professores.

Mas a falta de segurança ser a primeira colocada no ranking das dificuldades só surpreendeu a quem não acompanha o trabalho incessante de Cristovam.

E essa questão, de certa forma, explica os seguintes, que é a desmotivação dos professores e a questão da dificuldade de aprendizado de algumas crianças, porque, quando não se tem um ambiente de paz, um ambiente próprio para o aprendizado, isso dificulta a relação ensino-aprendizagem, dificulta o trabalho do professor e, por desdobramento natural, também o desempenho dos estudantes.

Professores e alunos se sentem inseguros. Reclamam que a escola hoje é desprotegida.

Não imaginava, depois de décadas, falando e repetindo as palavras de Cristovam pelo Brasil inteiro, que o problema da insegurança, teria essa dimensão. Sabia que esse problema existia, mas tinha a impressão que estava focalizado em algumas áreas, em algumas cidades, mas hoje percebi que não é bem assim. Ao invés de homenagear Professores educadores, a maioria dos discursos hoje, foram para homenagear professores mortos e heróis tentando salvar seus alunos.

Os números confirmam que todas as classes sociais estão preocupadas com a violência nas escolas. Drogas e falta de segurança são citadas por 60% dos entrevistados com renda familiar entre cinco e dez salários mínimos. E, mesmo entre os mais ricos, o índice chega a 40%. 

Quando atinge pobres e ricos passa a ser surpresa!

O segundo grande problema da educação apontado: professores desmotivados e mal pagos.

E finalmente a má qualidade do ensino. O número de analfabetos funcionais impressiona. Alunos que já passaram pela alfabetização, mas que ainda não conseguem ler a frase de nossa bandeira. Mas isso não deu tempo de ser abordado. Também, foi uma Sessão para homenagear e não para debater as soluções. Até porque, quem acompanha e luta por esse ideal, já sabe disso há muito tempo:


Para que hoje tivéssemos paz precisávamos ter construído escolas. “Construir uma escola custa muito menos do que não construí-la” DARCY RIBEIRO

Fazer do Brasil um país de “construtores de mentes” ; “A causa da desigualdade está no acesso à educação” ; “filho do trabalhador na mesma escola do filho do patrão”; “o futuro de um país tem a cara de sua escola” ... CRISTOVAM BUARQUE

Estamos muito atrasados, e ainda dizem que é cedo para implantar uma escola em horário integral, pagar bem seus professores e exigir deles qualificação e dedicação.

Hoje se falou muito no Japão. Mas pensam que outros países tem boas escolas porque são ricos, mas é o contrário: eles são ricos porque tem boas escolas. A educação não vem da riqueza, a educação faz a riqueza. O Brasil é um país com as prioridades de cabeça para baixo.

Não tem futuro um País que não valoriza o professor. E temos que rever isso. Aumentando a demanda que os professores exercem sobre a economia através da melhoria salarial, e vinculada à qualidade. A educação só melhora se esse dinheiro for revertido em qualidade educacional, exigindo mais formação e dedicação do professor e melhores notas dos alunos, vinculando os incentivos dados aos professores aos resultados que esses professores consigam nas salas de aula. 


Precisamos assumir isso no Brasil. Buscar uma saída, não puramente econômica e sim uma saída capaz de ver toda a complexidade da crise, a financeira, a econômica produtiva, a social da desigualdade e principalmente, a ecológica. Uma saída sustentável e não uma saída provisória, como se tem feito.

Já passou da hora. Chega de omissão. Não podemos esperar mais. Mas sempre é tempo de começar ou recomeçar.

Não podemos mais ficar comentando mortes e agressões à professores, violência fechando escolas por tempo indeterminado e  resultados vergonhosos de pesquisas. Não podemos mais continuar pagando as altas contas desses congressistas que passam o tempo todo enrolados em escândalos, enquanto nossas crianças analfabetas estão perambulando pelas ruas. 

Temos que ousar como fez Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro mas que lamentavelmente, seus sucessores não levaram adiante.

Nós temos capacidade para isso. Nós temos pessoas para isso. Lideranças que querem sair desse modelo que faliu e buscar um novo. Sair da crise buscando o novo e não sair da crise voltando e insistindo em direção à parte velha de um sistema que não funciona mais.

Está na hora. Há alguns anos atrás a polarização do debate eleitoral nos mostrava que os partidos e candidatos eram iguais. A diferença se limitava à tentativa de mostrar quem resistia mais às denúncias. Mas já havia uma proposta nova de alguém limpo e com uma história íntegra para reorientar os rumos nacionais.  E o mais impressionante: continua havendo! Ele insiste! E com a mesma coerência do começo, mesmo que, às vezes, seja rotulado de “chato”.
Não precisamos manter o caminho adotado e que criou a tragédia social em que vivemos. O Brasil precisa dessa Revolução! Nossa Revolução é pela Educação! Venha com a gente!


“ Houve um tempo de construtores de pirâmides e dos construtores de fábricas. Agora é o tempo dos construtores de mentes” Cristovam Buarque


* Professora, Educadora e Indigenista

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Ideias obsoletas



Por Cristovam Buarque, senador  e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).



Para continuar sua marcha, o progresso exige aposentar algumas ideias e adotar outras. As notícias dos últimos meses mostram que ainda continua viva a ideia obsoleta de intervenção militar para salvar o Brasil do caos ocasionado por uma ditadura. Eis uma das provas do fracasso das forças progressistas nos últimos anos. Equivocadamente, não enterramos essa ideia suicida nem outras que impendem o avanço do país.
O Brasil ainda acredita que suas florestas e águas são ilimitadas e que, para progredir, é preciso depredar a natureza. É preciso acabar com essa deturpação da realidade e, no lugar, consolidar o propósito de desenvolvimento sustentável: o progresso está em melhorar o bem-estar das pessoas, não necessariamente o consumo de bens materiais. E precisamos aceitar isso. Prevalece ainda o pensamento antigo de que a riqueza se mede pelo número maior de carros e não pela redução de horas perdidas no trânsito.
Da mesma forma, os brasileiros acreditam que o dinheiro do governo é ilimitado e não tem dono, por isso os gastos públicos podem ser desperdiçados. Precisamos entender que, ao gastar bilhões com estádios para a Copa, deixamos de investir em escolas, saneamento e universidades. A mente brasileira não percebe que a inflação é um imposto perverso sobre o povo, especialmente os pobres.
Ainda é permanente a ideia de que o gratuito não é pago, mas o gratuito para alguns é pago por todos. Por isso, é preciso acabar com a falácia de que tudo que é estatal serve ao público. Para ser estatal basta pertencer e ser administrado pelo governo; para ser público é preciso atender com qualidade e eficiência à população de hoje e ao futuro do país.
É preciso entender que a saúde não depende apenas de mais hospitais; ela começa no saneamento, passa por medicina preventiva e por educação para as pessoas cuidarem melhor do corpo e da mente. Apesar de arraigada, é equivocada a ideia de que a violência se combate apenas com mais polícia e mais cadeia. A paz exige uma visão ampla que inclua a busca por assegurar educação de qualidade para todos, quebrar a desigualdade social, retomar a economia.
A evolução social das últimas décadas dividiu os trabalhadores: uma parte com nível de consumo e privilégios equivalentes aos dos capitalistas ricos; outra parte, desempregada ou recebendo baixos salários. Ao mesmo tempo, milhões de pequenos empresários têm renda inferior à de assalariados. Apesar disso, muitos estão convictos sobre a existência de um proletariado que representaria o conjunto dos trabalhadores, todos explorados pelos capitalistas.
No debate sobre a Abolição, alguns acreditavam que os escravos não seriam capazes de sobreviver em liberdade. Felizmente, essa ideia foi enterrada. Agora é preciso superar o pensamento arrogante de que os trabalhadores não são capazes de escolher e financiar livremente seus sindicatos e definir a melhor maneira de defender seus interesses. Os direitos dos trabalhadores decorrem mais da educação que eles receberam na infância e juventude do que de leis que não resistirão ao avanço técnico em marcha no mundo.
O eleitorado acredita ainda que basta o voto a cada quatro anos para considerar o Brasil um país democrático. A democracia exige fiscalização, cobrança e educação. Pela Lei da Ficha Limpa, a cobrança de propina na construção de um estádio faraônico é motivo para barrar a candidatura de um governador na eleição seguinte. Mas seria preciso exigir a lei do curriculum limpo, que o punisse por gastar quase R$ 2 bilhões em um elefante branco, quando, ao redor do prédio, há milhares de pessoas sem saneamento, saúde e boas escolas.
Para quem acredita que o aumento de salários e bolsas é capaz de erradicar a pobreza, a realidade mostra que aos mais desfavorecidos falta de acesso aos bens e serviços essenciais. A emancipação não vem da renda, mas da educação. O Brasil precisa abandonar a velha crença de que os filhos dos pobres sempre estudarão em escolas sem a mesma qualidade das que os filhos dos ricos estudam. Se o Brasil quer progredir, deverá enterrar esse antigo preconceito e adotar a ideia, seguida em muitos países, de que é preciso e possível montar um sistema educacional com qualidade e igual para todos em todo o país. Estamos amarrados a conceitos superados, mas muitos brasileiros ainda se agarram a eles como zumbis que se negam a ser enterrados. E resistem a novas ideias, necessárias para os novos tempos.


Artigo publicado pelo Jornal Correio Braziliense 


sábado, 16 de setembro de 2017

Suissinato do futuro


Por Cristovam Buarque (*)
O futuro de um país tem a cara de sua escola no presente. Cortar recursos para a universidade é como suspender transfusão de sangue para o país. O que acontece com a Uerj é um exemplo disso; portanto, o futuro do Brasil não parece bonito nem próspero. Ainda mais quando percebemos que a crise é de todo o conjunto de nosso ensino superior.
Embora a falta de verbas seja a causa mais visível, a tragédia tem motivos internos que exigem uma autocrítica. Há décadas a universidade estatal brasileira vem cometendo o suicídio de uma morte anunciada, apressada pelo assassinato por governos irresponsáveis: abandono e acomodamento formam o veneno do “suissinato”.
A qualidade do ensino superior depende diretamente da educação de base. Apesar disso, a universidade assistiu à degradação do ensino infantil, fundamental e médio sem lutar politicamente para forçar prioridade para elas. Também não se dedicou a formar bons professores para nossa educação de base.
A comunidade acadêmica falhou ao não lutar contra a irresponsabilidade fiscal, aplaudindo a construção de estádios e a implantação de programas populistas e fechando os olhos à corrupção, o déficit agora é pago com o corte de verbas. A universidade deve lembrar que a gratuidade é paga com dinheiro do conjunto da sociedade.
Diante do previsível esgotamento fiscal do Estado, a universidade precisa ser mais eficiente na gestão dos recursos que recebe e na captação de verba complementar em fontes não estatais, como fazem as universidades em todo o mundo. Mesmo em tempo de austeridade gastamos mais do que as universidades europeias e asiáticas que estão entre as melhores do mundo.
A universidade se contenta em ser basicamente escada social, pela outorga de diplomas, no lugar de ser alavanca para o progresso, pela inovação do saber em todas as áreas. Está desconectada do setor produtivo. Perdemos a sintonia com os rápidos avanços do conhecimento: considerar carreiras e diplomas como permanentes. Não se internacionaliza nem adota os novos métodos de ensino à distância.
Além do corte de verbas, a crise da universidade tem tudo a ver com sua rendição ao corporativismo, ao partidarismo, desprezando o mérito e sem um pacto de qualidade com a sociedade. Ao longo de anos foram tantas greves que a população chega a imaginar que a atual paralisação da Uerj é apenas mais uma delas, não decorre da falta de recursos por irresponsabilidade do governo estadual.
Se o Brasil quer encontrar um rumo, precisamos salvar a Uerj e as demais universidades do país da crise financeira do momento. Mas para isso, as universidades precisam salvar a si próprias, fazendo autocrítica, reformando-se para estar à altura dos desafios do conhecimento e, ao mesmo tempo, do esgotamento de recursos.
Abandonar as universidades, como acontece especialmente com a Uerj, é uma forma de assassinar o futuro do Brasil, mas manter a universidade sem uma profunda reforma é cometer suicídio institucional.
(*) Professor, senador

Artigo publicado pelo Jornal O Globo – 16/09/2017

sábado, 2 de setembro de 2017

Comemoração incompleta

Por Cristovam Buarque

Daqui a cinco anos, o Brasil ingressará no terceiro centenário de sua história como país independente. Neste 7 de setembro, aos 195 anos de nossa independência, é possível comemorar o que nossos antepassados conseguiram. Atravessamos quase 200 anos consolidando um imenso território soberano e unificado por redes de transporte, de comunicações, de distribuição de energia, a economia brasileira está entre as maiores do mundo no valor do produto, passamos de 200 milhões de habitantes. Não há dúvida de que temos que comemorar os primeiros dois séculos.
Mas se, no lugar de olharmos para a história, olharmos ao redor, a festa perde seu brilho. Comemoramos um elevado PIB, o oitavo do mundo, mas 84° por habitante, por causa de nossa baixa produtividade. Igualmente grave, nossa economia se concentra em bens agrícolas e minerais ou indústrias tradicionais, porque somos um país de baixa capacidade de inovação. Do ponto de vista social, carregamos a vergonha de sermos campeões em concentração de renda, temos formidáveis ilhas de riqueza e um trágico mar de pobreza.
Chegamos ao nosso terceiro século divididos tão brutalmente que podemos nos considerar um sistema de apartação, um país onde a população está dividida e separada por “mediterrâneos invisíveis” intransponíveis. Somos um país integrado fisicamente e desintegrado socialmente. Por isso, somos hoje, em parte, campeões de violência urbana com mais de cem mil mortos por ano, 50 mil assassinatos e 45 mil vitimados por acidentes de trânsito.
Na política, apesar de comemorarmos o aniversário com um sistema democrático e instituições funcionando, em nenhum outro momento tivemos uma classe política tão desacreditada. As promessas foram descumpridas, a corrupção se alastrou, os partidos se desfizeram, as finanças públicas foram quebradas, as estatais arrombadas, as corporações dividiram o país em republiquetas sem sentimento nacional. A sensação é de que o país entra no seu terceiro século desagregando-se, sem coesão social, sem rumo histórico.
O mal-estar se explica por muitas causas, mas certamente a principal está no descaso com a educação de nossa população, desde a primeira infância. Chegamos ao nosso terceiro século com 13 milhões de compatriotas adultos incapazes de reconhecer a própria bandeira da República, por não saberem ler o lema “Ordem e Progresso”. Além destes, segundo o IBGE, são quase 28 milhões de adultos analfabetos funcionais, apenas um pequeno número de jovens recebe formação necessária para construir a economia e a sociedade do conhecimento que vai caracterizar o século adiante. Passados dois séculos, ainda somos um país com baixíssimo grau de instrução e com abismal desigualdade no acesso à educação conforme a renda da família.
E não seria difícil fazer com que, bem antes do quarto século, o Brasil conseguisse ser um país com educação de qualidade para todos: os filhos dos mais pobres em escolas com a mesma qualidade dos filhos dos mais ricos; uma sociedade que não dispensaria um único talento intelectual de sua população. Sem isso, certamente não teremos o que comemorar quando o quarto centenário chegar.


Artigo publicado pelo Jornal O Globo – 02/09/2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Aliança para salvar Brasília



Por Cristovam Buarque, senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).



Muitas vezes, a política promove alianças eleitoreiras e em outras, patrióticas. Não é fácil reunir em um mesmo projeto políticos com divergências anteriores. Quando isso ocorre, em geral, estão sacrificando princípios, programas e ideias em função de interesses puramente eleitorais.
Em ocasiões distintas, políticos adversários deixam de lado as divergências para se unirem em defesa de interesses maiores do país ou da cidade. São alianças para salvar a comunidade da crise que atravessa.
O Brasil viu isso quando Prestes, depois de anos preso e sabendo que sua esposa fora enviada para a morte na Alemanha, se uniu a Getúlio Vargas para trazer de volta a democracia; ou quando Mandela se uniu a De Klerk para acabar com o apartheid na África do Sul. São alianças salvadoras. Brasília está precisando de uma dessas.
Governos anteriores do Distrito Federal deixaram uma imagem negativa na política e um desastre fiscal nas finanças. O último governo, além de péssima imagem moral, deixou as contas públicas absolutamente falidas, diante dos compromissos assumidos, irresponsavelmente, para obter votos e se reeleger.
O Estádio Nacional de Brasília  Mané Garrincha é o símbolo perfeito desse desastre. Uma obra sem sintonia com as necessidades da população, foco de corrupção de dirigentes, tanto nas prioridades, quanto no comportamento. Gastos de quase R$ 2 bilhões no estádio, no lugar de escolas, saneamento e saúde. Apropriou-se de parte disso sob a forma de propina, segundo a Polícia Federal.
Lamentavelmente, o estádio é uma entre dezenas de outras medidas imorais que destruíram o bom funcionamento da nossa cidade e a credibilidade de nossos políticos. O governador atual assumiu uma cidade com compromissos que não tem como cumprir, sejam aqueles determinados por seu antecessor, sejam alguns que ele prometeu na campanha eleitoral de 2014.
O resultado é que seu governo se arrasta há dois anos e meio no pântano das dificuldades fiscais — todos recursos são para pagar salários e outros poucos custeios. Apesar de receber mais de R$ 13 bilhões do Fundo Constitucional, que o resto do Brasil, inclusive estados pobres, nos transferem anualmente, agora não temos como pagar os salários de nossos servidores em dia.
Quando o governador assumiu, em 2015, deveria ter chamado todas as lideranças políticas, inclusive, os seus opositores, para tentar encontrar um caminho, com apoio de todos, e enfrentar as dificuldades. No lugar disso, preferiu se isolar com um pequeno grupo de auxiliares, que se consideram em condições de resolver todos os problemas. Fracassaram.
Brasília precisa superar sua dupla tragédia: fiscal e moral. Equilibrar suas contas, usar seus recursos para servir à cidade e ao seu povo e recuperar a credibilidade de seus dirigentes. Isso não será tarefa de nenhum líder carismático, de nenhum partido. Exige uma aliança de todos que tenham sentido de responsabilidade e respeito aos interesses públicos.
A aliança para salvar Brasília não deve abrir mão de convicções e não pode ter preconceitos: deve unir todos os políticos, independentemente de suas posições no passado, desde que respeitem princípios como:
— Não estarem sob suspeitas de corrupção;
— Terem responsabilidade no uso dos recursos públicos, não apenas pela ética no comportamento, mas também na responsabilidade do respeito pelas contas do erário;
— Entender que a gestão pública eficiente é um dos maiores compromissos necessários para servir bem à população;
— Não aparelhar e usar a máquina governamental para beneficiar seus partidos;
— Respeitar o mérito dos escolhidos para cargos e comprometer-se com a austeridade que elimine as chamadas mordomias e vantagens pessoais;
— Em nenhum momento cair na demagogia de prometer mais do que poderá fazer. Não se submeter às reivindicações de grupos corporativos, seja de empresários, seja de igrejas, seja de sindicatos de servidores;
— Definir um programa claro para corrigir os graves problemas na saúde, no emprego, na educação, na mobilidade, na segurança, no crescimento da economia e, obviamente, no equilíbrio fiscal.
Em termos políticos, os últimos que governaram Brasília contribuíram para que a população tivesse uma visão negativa do Distrito Federal. É preciso que nossas lideranças tenham grandeza e se unam pela cidade em uma aliança patriótica.
Artigo publicado pelo Jornal Correio Braziliense – 29/08/2017

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

As Causas do Desastre


Vale a pena conferir: artigo publicado hoje 16/08/2017 no Correio.

As causas do desastre

Por Cristovam Buarque

Basta olhar ao redor para perceber o desastre social, econômico, institucional que os líderes deste país, no governo e na oposição, estão deixando como herança maldita para o presente e o futuro. Por ação, omissão ou incompetência, todos somos responsáveis, mas a culpa maior recai sobretudo nos governos liderados pela coalizão PTMDB entre 2003 e 2016. O PTMDB desprezou a gestão pública e entregou os órgãos estatais, Petrobras, fundos de pensão, agências reguladoras e outros, nas mãos de pessoas despreparadas, sem respeito ao mérito e à competência. Até mesmo na escolha do vice-presidente da República, houve desprezo aos interesses maiores do país. Para manter a coalizão, tudo se justificava, inclusive o loteamento do patrimônio estatal.
Ao aliar-se ao PMDB, o PT perdeu também o vigor transformador que caracterizava seu discurso; distanciou-se das promessas reformistas e caiu no assistencialismo com fins eleitoreiros. No lugar de iniciar as transformações na educação para, um dia, os filhos dos pobres estudarem em escolas com a mesma qualidade das dos filhos dos ricos, preferiu vender a ilusão de que o aumento de vagas nas universidades resolveria o triste estado das escolas públicas.
Sem bandeiras transformadoras, aprisionado ao eleitoralismo, caiu na banalização e na institucionalização da corrupção.Deixou-se levar pelo comportamento dos políticos no uso de propinas, como também na definição de prioridades ao construir estádios em vez de melhorar as escolas. As manobras visando ao poder pelo poder, sem bandeiras para o futuro, levou o PTMDB à promiscuidade entre os dois partidos e destes com os empresários. Assumiram que, na política, todos são iguais na falta de propósitos transformadores e na voracidade da corrupção, desmoralizando a política e afastando os jovens da militância.
A corrupção e a falta de gestão teriam sido evitadas se não fosse a surdez às críticas e o culto à personalidade de seus líderes. Não se perguntou por que militantes com solidez ideológica, eticamente respeitados, saíram do partido; nem ouviram os alertas vindos de aliados. Dividiu o mundo político entre nós e eles, colocando do lado “nós” velhos coronéis corruptos e do lado “eles” pessoas sérias, apenas porque os primeiros batiam palmas e os outros criticavam. Políticos com forte tradição de direita viravam esquerda se batessem palmas; esquerdistas críticos eram tidos como de direita, se não aplaudissem.
Esse comportamento levou ao sectarismo, transformando os partidos em seitas, intolerantes com os críticos. Direções e militantes passaram a desconfiar das bases democráticas, da coerência dos partidos, da seriedade dos meios de comunicação, da neutralidade dos juízes. O sectarismo impediu de ver as transformações que ocorrem no mundo, deixando a militância para trás na história. O partido se firmou como defensor de interesses conservadores das corporações e do presente, relegando os interesses nacionais e o longo prazo. Confundiu sindicato com povo, presente com futuro. Não foi capaz de perceber as amarras que impedem o país de avançar.
Para manter-se reacionário sem perder o discurso progressista de antes, optou por falsas narrativas, preferiu marqueteiros a filósofos. Sem substância ideológica, porque os filósofos se transformaram em seguidores, perderam o compromisso com a verdade, passaram a acreditar nas próprias mentiras: “o pré-sal salvaria o Brasil,” o Bolsa Família emanciparia os pobres, “os que divergissem seriam traidores”. Caiu na armadilha dos que acreditam nos dogmas que criou. Tanto que certamente se negará a debater esse artigo, uma vez que só os aliados merecem ser lidos.
A luta do PT foi um dos maiores saltos de toda a história política do Brasil. Seus desvios nos últimos anos foram uma traição à pátria, ao provocar desperdício da esperança e do potencial para realizá-la. O enfraquecimento do PT, pela desconfiança da população, pelo afastamento de muitos de seus militantes e pela prisão mental em que estão os que ainda lhe são fiéis, sem espírito crítico, talvez seja o maior dos erros de suas direções nos últimos anos, além do desastre provocado no rumo do país e do povo ao progresso.